Lomadee, uma nova espécie na web. A maior plataforma de afiliados da América Latina.

Pesquisar este blog

Carregando...

quarta-feira, 23 de março de 2011

História: Bangú. Em 1905, o primeiro clube a aceitar um atleta negro

Recentemente acompanhamos a saga inglória de nosso eterno e detentor da nossa cota master do vice-card. Na tentativa, em vão, de entregar ao presidente Americano Barack Obama, em visita ao Rio. Camisas alusivas ao que o Vasco credita para sí como pioneiro na aceitação de atletas negros em um clube de futebol.

Vamos então naufragar de vez com esta versão inveridica dos fatos:


O BANGU DE FRANCISCO CARREGAL



(O pioneiro time do Bangu de 1905. Ao centro, com a bola, o operário negro Francisco Carregal)



O The Bangu Athletic Club, um dos clubes de futebol pioneiros na prática do esporte no Brasil, foi fundado em 1904 por ingleses que trabalhavam na Companhia Progresso Industrial do Brasil, a fábrica de tecidos do bairro. Possuia no início, assim como o Paissandu Cricket Club e o Rio Cricket and Athletic Club (esse, de Niterói) , jogadores majoritariamente ingleses em seus quadros.


Em 1905 o time do Bangu era formado por cinco ingleses (Frederick Jacques, John Stark, Willlian Hellowell, W. Procter e James Hartley) , três italianos (César Bocchialini, Dante Delloco e Segundo Maffeo), dois portugueses ( Francisco de Barros, modesto guarda da fábrica conhecido como Chico Porteiro, e Justino Fortes) e um brasileiro ( o operário negro Francisco Carregal).


O jornalista Mário Filho, autor do imprescindível O Negro No Futebol Brasileiro - livro que reputo tão importante para entender o Brasil como um Casa Grande e Senzala - verificou um detalhe significativo na foto da equipe banguense que abre esse texto do blog. Dos onze jogadores, o mais bem vestido era exatamente o negro Francisco Carregal. Reparem só na beca do malandro.


O fato é que Carregal foi um pioneiro na história do futebol do Rio de Janeiro. Não há referência anterior a ele de um negro e operário - Carregal era tecelão da fábrica - praticando o violento e então elitista esporte bretão em terras cariocas. Cercado de estrangeiros, todos eles brancos, Carregal caprichava na beca para diminuir o impacto de sua condição como praticante de um esporte de almofadinhas, fato compreensível naquelas primeiras décadas pós-abolição.

Creio que o traje requintado de Carregal pode ser comparado ao esmero com que se vestia, nos anos de 1930, o sambista Paulo da Portela, sempre de gravata e sapatos. Paulo sabia que, naquele contexto, o negro precisava conquistar um espaço que só viria com um comportamento firme e exemplar. O branco tinha o salvo-conduto da cor da pele. O buraco, para o negro, era mais embaixo.

Alguns meses depois de sua fundação o Bangu colocava, sem restrições, operários e negros no time, misturados aos mestres ingleses. Enquanto o Fluminense e o Botafogo jamais conceberiam isso, a equipe banguense abria suas portas para outros jogadores como Carregal, a exemplo do goleiro Manuel Maia, um goalkeeper crioulo retinto.

Foi também o time da fábrica que aboliu a distinção entre os torcedores nos estádios. Na maioria dos campos os pobres ou mal ajambrados não podiam assistir aos jogos nas arquibancadas, espaço reservado aos distintos chefes de família, aos jovens promissores e as raparigas em flor. Ao poviléu cabia um espaço separado, logo chamado de geral, que distinguia, segundo um jornal do início do século, a platéia dos espetáculos, sempre bem trajada e ocupando o espaço nobre no field, do torcedor comum. O Bangu cometeu, desde o início, a bendita ousadia de não compartimentar o público de seus jogos em espaços separados.

Independentemente de análises sociológicas que não interessam a esse espaço, resgatar um pouco essa trajetória do Bangu serve também para quebrar o mito de que o primeiro clube carioca a aceitar negros e operários foi, na década de 20, o Vasco da Gama. O time da cruz de malta foi, e é fato incontestável e para sempre louvável, o primeiro dos quatro grandes do Rio a aceitar em seus quadros os negros e operários. Clubes ditos pequenos, porém, faziam isso desde o início do século XX, como é o caso do pioneiro - esse sim! - Bangu de Francisco Carregal e dos suburbanos times do Esperança e do Brasil (escreverei em breve sobre eles).

Nessa semana em que o aniversário da abolição da escravatura estimula a reflexão sobre a questão do negro na sociedade brasileira, o Histórias do Brasil se dedicará a personagens marcantes da trajetória dos descendentes de escravos em nosso país.

Chama Francisco Carregal !

A esta altura dos fatos falar mais qualquer coisa seria como bater em cachorro morto, mas fica mais um dado:

O Vasco, que de forma inveridica, orgulha-se de ser o primeiro a permitir a presença de atletas negros; Além de omitir não ser, de fato, o primeiro também omite a a verdade de qual era o tratamento dado a esses atletas, como por exemplo: pagar uma miséria em relação aos atletas brancos perna-de-pau da colina, assim como também o fato de terem cogitado fazer vestiário separado para estes atletas.

0 comentários: